
Reembalagem é o segredo do sucesso
Ganhar dinheiro com a internet hoje em dia não é uma coisa muito difícil. Eu mesmo já andei ganhando uma graninha com a venda do meu último livro, que não passava de uma compilação dos textos deste blog traduzidos para o inglês. Não ganhei muita coisa, mas esta também nunca foi a intenção, mas tem muita gente ganhando dinheiro com seus blogs, principalmente fora do Brasil.
Se você cria um conteúdo de qualidade, não é difícil ganhar dinheiro com ele, desde que você não tenha vergonha de fazer dinheiro. Mas o mais impressionante é que algumas pessoas conseguem ganhar dinheiro mais de uma vez com o mesmo conteúdo.
Não é de hoje que expresso minha admiração pela 37signals, e os caras realmente a merecem. Você muito provavelmente já ouviu falar do livro Getting Real (Caia na Real), onde eles documentam alguns de seus insight sobre a forma como eles criam e vendem produtos na web. O mais interessante é que tudo começou com uma série de artigos publicados no seu blog Signal vs Noise. Veja a seguir como eles ganharam dinheiro 4 vezes com o mesmo conteúdo.
Ganhando dinheiro pela primeira vez
Durante muito tempo eles escreveram, baseados em suas experiências, artigos muito originais sobre o processo de construção de um produto para a internet em seu blog. Estes artigos obviamente geravam muito tráfego e desta forma eles conseguiram alguns milhares de dólares com anúncios na barra lateral do site.
Ganhando dinheiro pela segunda vez
Quando já estavam com um número bem vasto de artigos sobre a sua filosofia de desenvolvimento publicados no blog, eles decidiram compilar os melhores posts no formato de um ebook. Nasceu assim o Getting Real, e cada cópia em PDF era vendida por 19 dólares. Desta forma eles conseguiram angariar aproximadamente 100 mil dólares.
Ganhando dinheiro pela terceira vez
Depois de um tempo, ele pegaram o Getting Real em PDF e transformaram-no em um livro impresso através do site Lulu.com. Cada livro era vendido por 25 dólares e eles conseguiram mais alguns milhares de dólares apenas no primeiro mês. O livro ainda encontra-se a venda no site e até pouco tempo atrás estava classificado como o quarto livro mais vendido.
Ganhando dinheiro pela quarta vez
Por último, eles pegaram o conteúdo do livro e produziram uma série de conferencias sobre a filosofia que eles criaram. Eles ganham em média $50 mil por conferencia e já realizaram mais de 5 delas.
Somando os resultados
Bom, vamos calcular quanto eles conseguiram ganhar com o mesmo conteúdo. Com anúncios eles conseguiram por volta de 100 mil dólares (é importante considerar que eles utilizam o The Deck como seu principal sistema de anúncios, e eles são sócios fundadores da empresa, então provavelmente devem receber um pouco mais do que o normal por anúncio). Com o livro em formato PDF eles ganharam por volta de 350 mil dólares e com o livro impresso eles conseguiram mais ou menos 65 mil. E por último eles já conseguiram 250 mil com as conferencias.
Isto dá um ganho total de 765.000 dólares ao longo de alguns anos, explorando o mesmo conteúdo, insight e idéias sobre como eles executam o seus negócios. Artigos publicados no blog, PDF, livro impresso e conferencias.
É claro que provavelmente eles também devem ter ganho mais algum dinheiro com negócios indiretos conseguidos através do sucesso do livro, como novas oportunidades para a empresa. Mas somente com o conteúdo criado eles chegaram a quase 1 milhão de dólares. Muito bom para um conteúdo que foi originalmente publicada de graça em um blog, não?
Se você ainda não leu o Getting Real, caia na real e trate de lê-lo agora. Temos até mesmo uma versão em português, totalmente gratuita, traduzida pela comunidade Rails brasileira.
Um dos tópicos mais polêmicos do livro Getting Real é o “Comece com Não”. Certa vez eu fiz alguns comentários sobre este ponto e ficou claro que algumas pessoas simplesmente não concordam com ele.
Acredito que o grande vilão neste caso são as consultorias e empresas de software que desde que sejam pagos aceitam criar qualquer tipo de funcionalidade solicitada pelo cliente, mesmo as mais ridículas delas. E isto de forma indireta acaba nos influenciando, mesmo quando estamos construindo nossa própria empresa.
Não me entendam mal, consultorias foram criadas exatamente para isso e este é o negócio delas. Quando uma empresa contrata uma consultoria para desenvolver seu software, normalmente é isso o que ela espera, gerar uma lista de demandas e ser atendida. (Hoje podemos encontrar algumas consultorias com filosofias um pouco diferentes, mas estou falando da maioria)
O que não podemos esquecer, entretanto, é que o livro Getting Real não trata desde ramos especifico de atividades, mas sim da criação do seu próprio produto. É neste momento que o dizer “Não” se torna indispensável.
Toda vez que uma nova funcionalidade é adicionada ao seu sistema, é como se você estivesse adotando um filho, você terá de lidar com ela para o resto da vida do seu software. Tente remover uma funcionalidade já existente e veja a reação de seus clientes. A idéia por trás do “comece com não” é provar o valor de uma nova funcionalidade antes de implementá-la.
Lembra-se do filme Clube da Luta? Para que um novo membro fosse aceito, ele deveria ficar esperando por três dias na porta, era assim que ele provava que merecia entrar para o clube. Faça o mesmo com as novas funcionalidades, deixe-as na geladeira por três dias antes de implantá-las. Faça com que elas provem que são realmente importantes, não saia implementando cada nova idéia ou sugestão de seus clientes.

Clube da Luta
Mas existe um problema nesta abordagem. Se você adotar a idéia de sempre começar com “não”, seu software, na maioria dos casos, terá menos funcionalidades que seus possíveis concorrentes (caso eles existam). E aquelas famosas listas comparativas são inevitáveis, colocando cada uma das funcionalidades que eles possuem e vocês não.
Mas não se intimide. Simplicidade é uma palavra muito forte hoje em dia, acredite. Se não fosse assim, o iPhone e o Basecamp não seriam o sucesso que são. Comparados com a concorrência, ambos oferecem menos funcionalidades, mas quando adquirimos qualquer um deles, é exatamente isto que estamos procurando. Priorizamos a simplicidade e a qualidade acima de tudo.

iPhone - o poder da simplicidade
Ter mais funcionalidades não significa ter um produto melhor. Uma forma de convencer seus clientes disso é deixá-los testar seu produto de graça durante um periodo de tempo. Na minha opinião isto é uma parte importante da estratégia para este tipo de empreendimento.
Este texto é uma tradução do artigo escrito por Chris Wanstrath, onde ele explica os benefícios de aplicar os princípios do Getting Real na construção do GitHub.
Você pode encontar a versão original (em inglês) aqui. Decidi traduzir este artigo, porque considero o GitHub como um caso de sucesso e a forma como ele foi desenvolvido é inspiradora para todos aqueles que desejam “cair na real”. Bom proveito!
Getting Real desde o primeiro dia
Temos empregado o Getting Real (com grande sucesso) no GitHub desde o primeiro dia. Não porque quisemos, ou porque pensávamos que seria o única coisa certa a fazer. Fizemos isso porque não tivemos escolha.
Tom Preston-Werner e eu estávamos trabalhando em tempo integral em outras startups quando começamos o GitHub. Este era apenas um trabalho secundário. Compartilhar repositórios em Git era muito difícil. Os sites existentes exigiam que se configurasse tudo na mão, o que era uma dor de cabeça. Sem perceber, passamos a adotar o Getting Real – compramos uma briga (com os sites de Git existentes), coçamos nossa própria coceira (tínhamos repositórios Git que queríamos compartilhar), e nos mantemos pequenos (nós dois planejamos fazer tudo sozinhos).
Aplicar o Getting Real no GitHub, embora estivéssemos familiarizados com ele, nunca passou por nossas cabeças. A idéia principal era construir algo útil do qual nos sentiríamos bem de poder usar. A parte boa, é claro, é que outras pessoas também gostariam de usá-lo. Então, percebemos que poderíamos transformar o GitHub em um negócio de verdade. Claro que estávamos sempre planejado como ganhar algum dinheiro, mas ganhar dinheiro e gerir uma empresa são coisas bem diferentes.
Nenhum financiamento externo
Tivemos uma conversa e concordamos de imediato: sem financiamento externo. Queríamos manter toda a empresa conosco. Ter pouco dinheiro, pouco tempo, e muita paixão deixa poucas opções. Você tem que fazer o que Jason, David, e os garotos dizem. É a maneira mais inteligente para o sucesso.
Uma vez que evitamos financiamento, fizemos mais algumas decisões: nos manter pequenos, dar ao site uma atitude, sempre dizer não e definir o objetivo do site em uma única frase. Ah sim, e encontrar nosso terceiro mosqueteiro. Encontramos Hyett PJ, um experiente desenvolvedor empresarial, e então mão à obra.
Lançando para já
Nós literalmente lançamos o nosso “beta” assim que o código de autenticação foi finalizado. Tínhamos usuários de verdade e projetos concretos cadastrados, trazendo-nos um inestimável feedback. O que funcionou, o que não funcionou, coisas deste tipo. Sem testes de laboratório ou pesquisas. Acompanhávamos o que as pessoas faziam ao invés de ouvir o que elas queriam fazer (o que naturalmente nunca é necessário).
Não só não estávamos preocupados com escalonamento quando lançamos o nosso beta, como a nossa arquitetura local nos proibia disso. Lançamos nosso beta em um single box, e devido a arquitetura do Git e da nossa configuração, não podíamos simplesmente adicionar outro box se o trafego aumentasse. Teríamos de reescrever a coisa toda. Mas tudo bem. Conseguir usuários era mais importante.

Mantenha-se informado
Blogamos a respeito e acompanhávamos o Twitter (via Summize) com olhos de águia. Trabalhamos duro para construir um hype e celebrávamos toda vez que um blogueiro influente se cadastrava no GitHub ou escrevia alguma coisa boa a respeito. Ver o que as pessoas estavam dizendo, especialmente as coisas boas, nos turbinava. Em pouco menos de 3 meses tínhamos nosso sistema de faturamento finalizado e pronto para lançar.
Mas as coisas sempre dão errado em dias de lançamento. Se tudo sair perfeito, alguma coisa saiu errado. Nos recuperamos rapidamente, e no geral tivemos um bom dia. Até conseguimos liberar algumas novas funcionalidades como uma espécie de “obrigado” aos nossos beta testers. Mas não conseguimos lançar tudo.
Vários projetos web, no nosso ramo, possuíam muitas funcionalidades que não tínhamos. Bug tracking, chat, integração contínua e outras coisas assim. Sendo somente três pessoas, poderíamos gastar o resto de nossas vidas criando estes recursos, ou com muito menos esforço, abrir pontos de integração para deixar as pessoas usarem os sites que eles amavam em conjunto com o nosso.
Campfire
Somos grandes fãs do Campfire, então por que não dar às pessoas uma maneira de integrar os seus códigos no GitHub com o Campfire? Adoramos usar o Lighthouse para ticket tracking, então porque não adotá-lo? Ao invés de criar funcionalidades que outros já faziam fomos capazes de gastar nosso tempo com idéias como o network visualizer e os comentários em commits.
“As coisas têm sido surpreendentes”
Tivemos nosso lançamento há três meses e as coisas têm sido surpreendentes desde então. Um ótimo crescimento, muitos usuários maravilhosos, e acima de tudo um site do qual estamos orgulhosos e que usamos todos os dias. De fato, depois de apenas três meses já estamos pagando alguns salários. Tudo sem financiamento.
Realmente, não aceitar financiamento foi ótimo para nós. Quer pagar do seu bolso para ter a Funcionalidade X? Não? Então deixe de lado. Se eu não estou afim de uma funcionalidade, eu não vou gastar o meu tempo (e muito menos meu dinheiro) implementado-a.
Outros princípios inestimáveis
Enquanto idéias como “sem financiamento” e “mantenha-se pequeno” são os pilares, alguns outros princípios do Getting Real embora fáceis de se esquecer, são inestimáveis. O “tela em branco” é uma destas idéias. Basicamente, o que os seus usuários verão quando usarem pela primeira vez o seu aplicativo importa, e muito. Um bem respeitado desenvolvedor Ruby abordou PJ em uma conferência e mencionou especificamente o quanto ele gostou de sua primeira experiência com o news feed do GitHub. Ele não utilizou essas palavras, é claro. Em vez disso ele disse exatamente o que queria ouvir: “Depois de me cadastrar, a página de Boas Vindas me mostrou exatamente o que fazer em seguida”. Quando você cria um novo projeto no GitHub, você realmente pode copiar e colar o texto da caixa “What’s Next?” no seu console para configurar um repositório em seu computador. Isto facilita as coisas.
Para mim, a ‘atitude’ é um outro aspecto que normalmente é subestimado. Mas é a solução perfeita para muitos problemas. Tem uma grandes parada programada? Exiba vídeos do YouTube para seus usuários na página “Vamos estar de volta em breve” (nós fazemos isto – os visitantes assistem a uma coleção de vídeos pré-selecionados). Precisa mostrar uma mensagem de “carregando” enquanto executa algo em background? Torne isto engraçado. “Fork” (copiar) um repositório demora um pouco e a nossa mensagem “Hardcore Forking Action” tornou-se infame entre nossos usuários. Adicionar um pouco de tempero em coisas que normalmente são rotineiras e chatas é a melhor coisa a se fazer. Você não é o Banco do Brasil ou qualquer outra megacorporação – mostrar o seu lado criativo em lugares pouco ortodoxo é a melhor maneira de provar isto.
Eu mencionei anteriormente que chegamos a um acordo sobre uma única frase para definir o objetivo do site. Embora o GitHub continue brincando de integrar produtos de terceiros, aspectos de redes sociais, APIs e feeds, um visual interessante e outras características que nós amamos, ele foi criado para facilitar o compartilhamento de códigos. E isso é o que nós dizemos: “Hospedagem Git: deixou de ser um pé no saco”.
Até aqui, tudo bem.
